quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Conto de Fraldas

Nos tempos de antigamente, quando ainda os animais falavam com as pessoas,
numa noite de luar, Mamãe Ganso toma uma decisão
Chama o Gato de Botas e lhe diz: "pode ir,
já entendi que não tem lugar pra mim na tua vida"
O gato eriça o pêlo e seu olhar se acende
Ao ver a excitação do gato ao ser liberto, o rosto de Mamãe Ganso se anuviou
O gato então lhe contestou:"Mas também, Mamãe Ganso, se você queria alguém pra ficar,
não deveria ter escolhido um gato!"
"Eu sei, querido, é que achei que poderia convencê-lo a mudar sua natureza..."
"Acaso pode um gato deixar de ser gato?"
"Você tem razão, não pode, eu é que tenho que mudar essa minha teimosia..."
Então, compadecido, antes de sumir entre os telhados, ele
decide compartilhar um pouco de sua sabedoria com Mamãe Ganso:
"Pela tradição chinesa, quando vamos dar qualquer coisa para alguém,
temos que fazê-lo com as duas mãos. Esta é uma forma de demonstrar respeito
e dedicar total atenção a ela no momento de lhe oferecer algo"
Mas Mamãe Ganso não tem tempo para antigas estórias,
já se levantara e estava mexendo a panela,
enquanto recolhia a roupa do varal
e consertava o cano da pia que estourara mais uma vez
O gato então, antes de escapulir pela janela pergunta:
"E na sua vida, Mamãe Ganso, tem lugar pra um gatinho?"
Ela, sem prestar muita atenção diz:
"Mas é claro que tem, meu amor!"
O gato se vai, e, ao se dar conta de que está sozinha de novo,
Mamãe Ganso se dá ao direito de
debruçar-se na janela e deixar que a lua
despeje uma gota prateada que desenha caminhos em sua bochecha rosada
Mas logo desperta e volta a sua rotina atarefada
Enquanto passa o lençol com o ferro em brasa, pensa:
"Permitir-se sentir falta é para poucos
Privilegiados são aqueles que podem deixar-se vazios
a espera de serem preenchidos.
Eu não tenho tempo para isso!"
Mas, antes de dormir, ao soprar a lamparina,
quando já os guardas do pensamento estão indo dormir,
um último vagalume invade sua casa:
"Ou talvez me falte a coragem..."

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